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  • Dois tiques cinzas

    Tem projetos que a gente começa, prototipa e, engolidos pela rotina, acabam esquecidos. A ideia de criar um bot de WhatsApp para a TI do hospital onde trabalho é um desses casos. Cheguei a prototipar no ano passado, idealizei o fluxo, escrevi algumas linhas, mas a vida tomou outros rumos e acabei não evoluindo.

    As coisas mudaram de figura recentemente, quando assumi a supervisão do setor. Um hospital é um ambiente inerentemente caótico e barulhento. A impressora que atola papel, o sistema que trava, a urgência constante nos setores. Assumir a liderança traz um peso diferente para os ombros, e percebi que precisava dar uma ordem nessa confusão se quisesse ter alguma paz para a equipe trabalhar. Foi aí que resgatei o projeto do bot.

    A premissa era simples: o usuário manda a mensagem, o bot faz uma triagem, pede os detalhes e abre o chamado automaticamente. Mas a prática sempre exige um bocado de suor.

    Para começar, nosso sistema de chamados (o GLPI) rodava uma versão esquecida no tempo, lá de 2015. Tive que atualizar todo esse legado antes de sequer pensar no bot. Olhar para sistemas antigos, assim como sujar as mãos na mecânica de um carro, é um exercício de paciência que testa nosso apreço por entender como as coisas realmente funcionam por baixo do capô.

    Depois, veio a integração em si. Alguns dias e madrugadas desenhando fluxos e conectando a “API ao WhatsApp” usando o Node.js e a biblioteca Baileys. Eu poderia ter seguido pelo caminho conhecido e usado o whatsapp-web.js, que já havia utilizado em outro projeto. Mas havia algum tempo que eu tinha curiosidade sobre o Baileys. Gostei da ideia de uma solução mais enxuta, sem a necessidade de manter um navegador inteiro rodando em segundo plano.

    Nem tudo saiu de primeira. Essa semana mesmo, esbarrei num bug curioso: o bot simplesmente ignorava a primeira mensagem de quem entrava em contato. Um “Oi” caía no vazio. Depois de algum tempo investigando, descobri uma combinação de travas que eu havia implementado com o jeito que a biblioteca lida com determinados eventos de conexão e sincronização.

    Quando finalmente isolei o problema, removi o que não precisava estar ali e a engrenagem girou macia, fiquei alguns minutos apenas olhando o terminal. O bot estava lá, independente, abrindo chamados, chamando a equipe, enviando atualizações. Pela primeira vez, a ideia que passou meses esquecida num repositório parecia pronta para encarar o mundo real.

    Acho que programar, no fundo, é um pouco sobre isso. Escrever dezenas de linhas de código, lidar com a frustração de um erro bobo e o cansaço mental, para no fim comprar um pouco de silêncio e previsibilidade para os dias. E num ambiente onde quase tudo é urgente, previsibilidade vale ouro.

    Amanhã ele entra em produção. Se tudo correr bem, vai comprar um pouco de silêncio para a equipe. Se não correr, pelo menos já sei o que vou fazer nas próximas madrugadas.

    P.S.: Configurei o bot para não exibir o status “Online”. Ele lê as mensagens, abre chamados, mas no modo “fantasma”, entregando apenas os dois tiques cinzas de volta para quem enviou. Um pouco de discrição faz bem.

  • Seus amigos e vizihnos. (Jonathan Tropper, 2025-2026)

  • Domingo de tarde. Eu no Fortnite, Jaja com o caderno de desenho.


    Em algum momento olhei para o lado e vi o que ela estava desenhando, nós três: eu, ela e Helisa.


    Quis que não tivesse fim.

  • O tempo, as curvas e o silêncio de janeiro

    Meu último post por aqui foi publicado no dia 2 de janeiro. Depois disso, um silêncio longo se instalou neste espaço. Nem sempre o silêncio significa falta de assunto; quase sempre, é o exato oposto. Tempos de calmaria geram ótimos textos em tempo real. Já os tempos em que a vida resolve capotar os dias exigem que a gente primeiro viva para, só depois, tentar traduzir tudo em palavras.

    E quanta coisa cabe em pouco mais de quatro meses.

    Se eu olhasse para o meu cotidiano de um ano atrás, mal reconheceria a rotina que tenho hoje. A começar pela faculdade. Iniciei mais um semestre e, quem está nessa jornada sabe, conciliar os estudos, vida pessoal e profissional é sempre um exercício de equilibrismo.

    No trabalho, a engrenagem mudou de ritmo. Fui promovido a supervisor de TI. Assumir a liderança de um setor em um ambiente complexo e dinâmico como o de um hospital traz um peso diferente para os ombros. De repente, o seu escopo deixa de ser apenas resolver o problema técnico que está na sua frente e passa a ser a gestão das pessoas, dos processos e do tempo. É desafiador, por vezes exaustivo, mas é recompensador notar o próprio amadurecimento profissional se materializando.

    Para acompanhar essas transições e tantas outras nuances que se acumularam na rotina, até as ferramentas do dia a dia mudaram. Em janeiro, troquei de carro. Curiosamente, fiz o caminho inverso da maioria: saí de um modelo mais recente e comprei um mais antigo. Um veículo que exige mais atenção, claro, mas que de alguma forma conversa melhor com o meu apreço por entender como as coisas funcionam.

    Olhando de fora, parece apenas a descrição de um começo de ano corrido. Mais trabalho, mais estudos, deslocamentos, burocracias. Mas a verdade é que toda essa aceleração, a busca por estabilidade, o foco na carreira, a mudança na dinâmica dos dias, não aconteceu por acaso, nem por mera ambição ordinária.

    Havia um norte invisível puxando tudo isso.

    Em outubro do ano passado, o mundo mudou de eixo. Lembro de olhar para aquele resultado e ficar alguns segundos sem saber muito bem o que fazer com o tamanho do que estava vendo. Não era susto, era a sensação de que a vida havia acabado de reorganizar todas as suas prioridades sem me pedir licença. A Jaja, minha companheira, estava grávida. A Helisa, minha primeira filha, estava a caminho.

    Tudo o que fiz, decidi ou organizei desde então foi uma preparação para a chegada dela. E agora, enquanto escrevo estas linhas, estamos batendo na porta das 36 semanas. A expectativa já não cabe mais nos planos. Ela se materializa na nossa sala com várias encomendas da Amazon daquela lista enorme de enxoval chegando quase todo santo dia. Está no berço, que já está pronto e posicionado logo ali, ao lado da nossa cama. E está, principalmente, no corpo da Jaja. O desconforto dessa reta final tem se intensificado bastante nos últimos dias, transformando o sono e o descanso dela em tarefas difíceis. Há um cansaço real aqui, misturado com uma ansiedade boa de quem sabe que a espera está acabando.

  • […] deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro.

    — Ailton Krenak, A vida não é útil.

  • Mercado aquecido?

    Todo mundo diz que o mercado de ti tá aquecido (ondee!?)

    Hoje chegou mais um daqueles e-mails padrão de processo seletivo:

    “Agradecemos sua participação… blá blá blá…”

    Engraçado porque eu nem lembrava de ter me candidatado nessa vaga específica (das tantas que já mandei, normal esquecer uma ou outra, né?)

    Coincidência que ontem mesmo resolvi criar uma planilha pra organizar tudo: vaga, empresa, data, link… só pra não me perder. E o timing foi perfeito: a negativa chegou e já ganhou seu espacinho na planilha 🤣

    No fim, até um não virou dado organizado.

    Melhor que nada.

  • A mulher da casa abandonada

    Assisti ao documentário “A mulher da casa abandonada“, que estreou na última quarta-feira, 13. Como não havia acompanhado o podcast de 2022 que deu origem ao documentário (de mesmo nome), assisti sem conhecer nada do caso. O caso envolve Margarida Bonetti, uma brasileira acusada de manter uma mulher em situação análoga à escravidão nos Estados Unidos.

    Fiquei simplesmente incrédulo com tudo, enojado com a forma como a própria Margarida Bonetti fala sobre o caso, negando tudo e acusando sua vítima de mentirosa. Ela claramente subestima tanto quem entende minimamente do caso quanto a própria vítima. Mas não é de se esperar muito… esse tipo de comportamento, essa fala altiva, é típico da elite branca.

    Estou aqui agora ouvindo o podcast, no episódio 2. Ele conta muito mais do que o documentário inteiro. Ainda assim, o documentário tem seu valor e vale assistir.

  • Sem limites (Neil Burger, 2011)

  • Premonição 6 (Zach Lipovsky, Adam B. Stein, 2025)

  • NGINX vs Apache: qual escolher?

    Se você já precisou configurar um servidor web, com certeza esbarrou nesses dois: Apache e NGINX.

    O Apache é o veterano. Está aí desde 1995, tem uma penca de módulos, roda bem com PHP, Python, Ruby… e permite configurar regras direto em cada pasta com o arquivo .htaccess. Porém, por muito tempo, ele criava um processo ou thread para cada requisição, o que complicava a escalabilidade, especialmente em ambientes de alta carga. Isso melhorou com o módulo mpm_event, que permite uma gestão mais eficiente das conexões, principalmente quando combinado com PHP-FPM. Porém, essa configuração precisa ser feita manualmente para tirar o máximo de proveito…

    Já o NGINX (lê-se “engine-x”) nasceu em 2004 com uma missão clara: lidar com milhares de conexões simultâneas. Ele usa uma arquitetura assíncrona, é leve, rápido e excelente pra servir arquivos estáticos, fazer proxy reverso ou balancear carga.

    Na prática, o NGINX costuma ser mais performático. O Apache ganha em flexibilidade e compatibilidade com sistemas legados. Muitos projetos usam os dois juntos, num modelo hibrido com NGINX na frente, como proxy reverso, para o Apache, que processa a aplicação.

    No fim, a melhor escolha depende do seu cenário, do projeto… e do que você já domina.